Buscar

O caminho da autoconfiança


O caminho até chegar a assumir para si mesmo que amou a sua fotografia é doloroso demais, há uma carga que trazemos da infância que pesa e dói os ombros, criando uma barreira até alcançar a autoconfiança ou até mesmo o autoconhecimento. Essa carga só é pesada porque ela é construída através de frases soltas no ar, jogadas de qualquer forma na cabeça de uma criança, por quem constrói a sua personalidade. Frases essas que são bem comuns como: “Olha o seu irmão, é bem melhor que você, você tem que ser igual a ele”, “olha fulano já está bem de vida, e você aí sem fazer nada”, “Nada que você faz presta”, “Tudo que você começa você não termina”... Todas essas frases são colaboradoras de um caminho inverso a autoconfiança, segurança, autovalorização...

A atenção para as vítimas dessa situação é redobrada, reproduzir o ciclo (que é o mais natural) não é a melhor opção; na maioria das vezes quem te faz passar por isso não faz ideia das consequências que isso pode trazer. Também se retiram de qualquer responsabilidade de causar isso, sempre a culpa será do que sofre, por ser sensível demais, se importar demais ou mesmo por causar aquilo. Novamente a atenção maior é para não reproduzir esse ciclo que as vezes já está sendo reproduzido.

E como quebrar a barreira para chegar na autoconfiança?

A autoconfiança não pode só ser falada, conheço muitas pessoas que são boas de lábia, mas no seu interior não gostam das suas fotografias, só que se assumir não gostando da sua fotografia não irá atrair clientes muito menos interessados pelo seu trabalho, logo o “melhor” é sair contando vantagens e vendendo um produto que você mesmo não acredita nele. Autoconfiança que estou falando é aquela de você mesmo vibrar pelo seu trabalho, você mesmo ser seu fã, você ter um argumento para cada escolha dentro da sua fotografia a ponto de você mesmo elogiar as suas fotos. Isso passa longe de prepotência, isso é uma conquista construída passo-a-passo durante muito tempo a ponto de hoje você se encaixar dentre os fotógrafos que você mais admira.

Não existe uma receita para autoconfiança, mas vou dividir em tópicos alguns itens que talvez te ajudem nisso:

1 – Se conheça

É necessário saber do que você gosta dentro da fotografia como técnica e dentro da fotografia como filosofia de vida. O ser humano naturalmente escolhe, mesmo aqueles que se dizem indecisos facilmente escolhem por eliminatória. Por exemplo: quando você mostra uma foto onde o corte da imagem está na testa da pessoa e pergunta se ela gosta ou não naturalmente ela vai saber dizer no mínimo a que ela gosta mais; eu chamo isso de seleção natural, isso já forma algo sobre o que você gosta.

Chamo de seleção natural a capacidade rápida de escolha de qualquer pessoa quando se está em uma situação comparativa, sobre isso a influência está no que a pessoa estuda, ouve, para onde viaja e como foi a criação, é uma escolha rápida, sem pensar muito em causas ou consequências, mas é apenas a primeira decisão.

Ver outros fotógrafos de diversas áreas, experimentar diferentes campos da fotografia e a partir daí ver com o que mais se identifica, nem que seja pela seleção natural de escolha.

Além de se conhecer na fotografia você precisa se conhecer como pessoa, saber o que você gosta de fazer nos horários vagos, para onde gosta de viajar, quais cores você gosta e quais você não gosta, quais músicas você gosta de ouvir, os seus padrões do que é belo ou do que é feio, se conhecer como pessoa deve ser buscado antes de se conhecer como fotografo.

2- Seja você

Sempre haverá clientes para te contratar, mesmo que você não cobre barato. Depois que você se conhece você deve estabelecer critérios dentro do seu trabalho, o critério principal deve ser o de não se vender e sim ser remunerado pelo que faz; parece ser a mesma coisa, mas são bem distintas.

Se vender consiste em você ser um a cada cliente de acordo com o interesse e necessidades dele, quase que um produto ou apertador de botões, fazer o que/como o cliente quer e geralmente nesse caso o cliente tem total autonomia sobre o trabalho; ser remunerado é quando você imprime o seu trabalho a ponto de quem te procurar desejar ter o que você faz, e não o que ele quer que você faça, nesse ponto você tem total autonomia sobre a criação dos projetos.

Não precisa ter medo da autenticidade, isso pode inclusive ser um atrativo. Parta do ponto que: se João te contratou, João gosta do seu trabalho. Também é válido pensar que sempre haverá alguém que se identificará com o seu trabalho.

3- Não tenha medo

Esse é um item que é bem difícil de lidar, geralmente quem ainda não conquistou a autoconfiança precisa da aprovação de terceiros antes mesmo de falar: “AMEI minha foto”, mas isso é uma coisa que só as decisões e o tempo vão fazer mudar.

Não tenha medo de arriscar, faça o seu projeto mais surreal, proponha coisas diferentes para o seu cliente, mesmo tendo a possibilidade dele não aceitar; faça a edição que você quer, sem medo do que vão achar quando as fotos forem para rede.

Desapegue-se da frase da infância “Nada que você faz presta” e entenda que sempre haverá um “fulano melhor que você” hahahaha. Não precisamos ser os melhores, precisamos ser muito bons, o título de melhor é bem perigoso, é um título que dura pouco e gera muita expectativa, seja bom, apenas bom. Se reinvente, se você se enxergar em alguma área de conforto, alguma luz que você sempre usa porque é fácil de agradar, mude! Não use mais.

Se você não gosta da sua técnica, estude. É muito bom a autocrítica, nos faz melhorar e progredir, mas precisa ser moderada, com o intuito de ajudar e empurrar para cima, faça das suas autocríticas motivos de estudo, onde você melhora aquilo que você não gosta.

Não tenha medo do que outros fotógrafos vão achar, eles sempre encontrarão defeitos nas suas fotos ou deixarão claro que você não fez alguma coisa que ele faria. Não fotografe para fotógrafos, fotografe para você, fotografe para amar o resultado.

4- Só você pode mudar o futuro

Se hoje você não ama 100% o seu trabalho e não consegue melhorar isso, é hora de estudar, não é hora ainda de se apaixonar pelas suas fotos. Há uma possibilidade de você não gostar do seu trabalho quando você ainda está muito longe de fotografar como os seus fotógrafos referência fotografam, não tenha pressa, vá com calma, eles provavelmente fotografam a mais tempo que você ou estudam mais.

Certa vez ouvi de um senhor enquanto eu falava de problemas que me prendiam no passado: “O seu passado já aconteceu, o futuro ainda não, cabe a você mudar ou ficar sofrendo por isso”; pode parecer bobo, mas foi quando caiu em mim a consciência de que todo o futuro só dependia de mim, e foi quando eu comecei a mudar.

A autoconfiança na fotografia está completamente ligada a segurança técnica também, portanto é necessário que você esteja sempre praticando; é impossível criar autoconfiança quando só se tira a câmera para fotografar trabalhos pagos.

5- Saiba errar

Se permita errar, TODOS são suscetíveis a erros, claro que você pode criar situações onde você vai poder errar e transformar isso em aprendizado. Existem situações que você não pode arriscar um erro, caso contrário você entrará numa “caixa” isolada e irá se punir e detestar o seu trabalho para o resto da sua vida, sem ter coragem de encarar nenhum outro trabalho durante um bom tempo.

Arrisque com responsabilidade, arrisque em situações que podem ser repetidas ou caso você devolva o cachê não haverá problema rs, de preferência nunca arrisque ao cobrar por um trabalho caso você não tenha feito um free antes naquela área e terá total segurança do que irá fazer.

Situações que você pode arriscar: Fotografar amigos, fotografar festa de família, ensaios dos sobrinhos, acompanhando algum fotógrafo em casamento, festa ou ensaio, ensaios fotográficos...

Situações que você não pode arriscar: Fotografar um casamento sozinho, fotografar algum evento importante pela primeira vez sozinho, testar equipamento novo na hora de fotografar, ter só uma bateria e cartão de memória, chegar em cima do horário.

A minha sugestão é que você possa ter um momento de reflexão e identificar as qualidades do seu trabalho, se elogie, se garanta, fale bem das suas fotos, se dedique em todos os trabalhos inclusive os que não são pagos, trace metas para você alcançar seu objetivo, se mantenha atualizado, faça workshops, transforme suas fotos em arte. Não espere reconhecimento de fotógrafos ou da sua família, se critique, mas se ame, escolha alguém de confiança que possa “avaliar” o seu trabalho periodicamente. Não tire fotos, retrate!

#FernandoBorges

0 visualização