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Fugindo do Dogma 95 | Por Lorrana Melo


Desde pequenos somos ensinados a seguir regras, sejam elas pela nossa proteção ou aprendizado. Lembro-me de todas as vezes que minha mãe vinha brigar comigo por ter quebrado alguma regra que ela tinha me emposto, não me tornei uma pessoa pior por isso, pelo menos eu acho. Mas as regras foram feitas para serem quebradas, tudo bem que nem todas, mas a grande maioria.

Onde eu quero chegar com isso se estou em um blog sobre fotografia? Pois é, não sei, mas vamos ver aonde isso vai dar.

Alguns anos atrás me deparei, lendo um livro, com algo chamado Dogma 95. Na época eu não sabia o que era e por ser uma pessoa muito curiosa fui ler sobre no mesmo segundo. Foi então que eu me deparei com um mundo, ou mandamentos, para um cinema mais realista e menos comercial.

Isso mesmo. O Lars Von Trier e Thomas Vinterberg, dois cineastas dinamarqueses, criaram uma lista de 10 regras em apenas 45 minutos para tornar o cinema mais próximo da realidade, fugindo daquele padrão “hollywoodiano” de ser. Ambos disseram que o dogma foi feito em uma tentativa de resgate do cinema antes dele se tornar uma indústria.

A lista de regras possui uma especificação técnica de como o filme deve ser feito e como o diretor deve se posicionar. Na época achei incrível, e de fato é incrível, mas seguir uma lista de regras não limita o nosso poder criativo? Pois bem, minha mãe me ensinou que para quebrar regras você deve conhece-las primeiro, então foi o que eu fiz. Eu peguei os mandamentos e li, estudei cada ponto dele, vou lista-los abaixo:

  • As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

  • O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

  • A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos - ou a imobilidade - devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

  • O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).

  • São proibidos os truques fotográficos e filtros.

  • O filme não deve conter nenhuma ação "superficial". (Homicídios, armas, entre outros, não podem ocorrer).

  • São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).

  • São inaceitáveis os filmes de gênero.

  • O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.

  • O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Como meu ramo é a fotografia eu olhei para essas regras adaptando-as para mim, como fotógrafa, e estudei cada ponto e cada detalhe e justificativa para essas regras existirem. E então comecei a quebrar cada uma delas. Não só pelo prazer de quebrar, mas para mostrar que pode ser real e não comercial sem precisar seguir uma lista de regras.

Estava conversando com uma amiga sobre o assunto e ela chegou a me dizer: “Ser real é ser fora das regras às vezes, porque a realidade não é perfeita” e ela tem toda razão. Regras criadas para chegar o mais próximo da perfeição do que é real, mas como poderíamos chegar a algo perfeito se a realidade não é perfeita? Posso mencionar inúmeras fotografias e filmes que são reais e não seguem a regra, mas como uma pessoa romântica, deixarei apenas uma única indicação de algo real: Before the Sunset e sua trilogia.

Lars Von Trier é um verdadeiro gênio, ninguém pode negar isso, mas que delícia que é quebrar as regras criadas por esse homem. Por fim, onde eu quis chegar nisso? Já me achei. Estamos todos estudando ou nos aperfeiçoando na fotografia e sempre nos deparamos com uma lista de regrinhas a seguir, por exemplo, na hora da fotometria o tracinho tem que estar no centro. A regra diz que ele deve estar, mas se você já a conhece o que te impede de quebrá-la? Quem nunca viu uma foto um pouco estourada no fundo e achou incrível?

Não estou dizendo que devemos fazer o que quisermos da fotografia, mas quando conhecemos e sabemos o que estamos fazendo, temos a permissão de criar, e para criar, temos que quebrar regras. O que seria da nossa criatividade se tivéssemos que seguir uma listinha?

Fotos: Lorrana Melo

#fotografia #cinema #dogma95

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