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A BELEZA DA MORTE | Por Carol Paternostro


O passado é um presente que você já recebeu. O futuro é um presente que ainda irá receber. Porém, se o agora não fosse também um presente, não seria por assim chamado. Por isso, acredito que, se o presente não for vivido como um “presente”, jamais estaremos conscientes da dádiva que é viver.

Vivemos com medo da tal felicidade, e esse medo nos impede de alcança-la. Queremos ser conquistados pelo Universo, mas esquecemos de conquistá-lo. Queremos ser amados acima de todas as coisas e esquecemos de nos amar em primeiro lugar. Aprendemos a nos alimentar desse amor e esquecemos, muitas vezes, de compartilhar essa descoberta. Queremos independência quando ainda nos esquecemos de que precisamos nos libertar das amarras das ilusões.

Amamos apenas a parte bela em nós por medo de olhar para as nossas feiuras e não sermos aceitos por elas. Contudo, somos seres inteiros, com nossas belezas e nossas feiuras também. Enquanto ignorarmos o que em nós precisa ser aprimorado, perdemos a grande chance de nos auto-conhecermos - e não há mudança sem conhecimento.

Julgamos a falta de entendimento enquanto resistimos a também compreender e aceitar o outro. Buscamos respostas na matéria e ignoramos o fato de que somos feitos de uma energia imaterial - o espírito. Acreditamos no amor carnal e que, para sobreviver ao tempo e espaço, o outro precisa continuar sendo visto e tocado. Pura ilusão e sabotamento de uma mente que ainda nos guia através desse medo, que é o medo de nos perdermos de alguém. Só perdemos aquilo que nunca tivemos, mas o que é realmente nosso continua a existir e nunca nos será tirado.

São tantos questionamentos sobre a vida até que, em um belo dia, a morte se aproxima como um grande clarão. Algo que muda tudo, convocado-nos a usar de toda a nossa sabedoria ancestral para nos conectarmos com o Eu maior e transmutar os condicionamentos da mente que nos leva ao apego nas crenças religiosas e culturais, do amor físico e do material. Nesse instante, descobrimos que o nosso medo tem o mesmo tamanho e a proporção da nossa força, pois é preciso resignificar rapidamente a dor da perda pela alegria da vida que ganhamos ao conviver com quem amamos. Tudo é uma questão de cultivar a imaginação.

Além da vida, tudo é abstrato. Se podemos sentir o vento, podemos ouvir um conselho. Se podemos mergulhar no mar, podemos ganhar um abraço. Se podemos levantar com o sol, podemos receber a clareza de uma nova oportunidade. Se podemos apreciar as estrelas, podemos reconhecer um sorriso.
Se podemos caminhar pela folhagem, podemos sentir nossos antepassados caminhando conosco.
Se podemos observar o rio que corre, podemos nos permitir seguir o fluxo.
Se podemos dançar debaixo da chuva, podemos perceber quando sentimos frio.
Se podemos escutar os pássaros, podemos ouvir seu coração.
Se podemos lavar a nuca numa cachoeira, podemos receber um cafuné da Grande Mãe.
Se podes amar acima de todas as coisas, então estamos abertos a receber todas as dádivas destinadas a nós.

É tão antagônico pensar no quanto a morte nos traz total clareza do que é realmente viver. Alguns de nós irão partir sem ao menos poder dizer um “até logo” para aqueles que amamos, e outros, mesmo podendo dizer, talvez precisem antes passar pela doença para descobrir o que é a verdadeira cura do ser. Entende-se, portanto, o compartilhamento da jornada. Num instante a vida pode ser tirada de você e, aos poucos, irá perceber que todo fim tem um novo começo. Resignificar a morte é o mesmo que voltar a dar sentido a vida.

O que seria a morte se não um renascimento tanto para quem vai, quanto para quem fica? A vida só vale a pena se for experimentada intensamente, até que nosso último suspiro seja um sopro de gratidão. Com a morte, eu aprendi que o novo só chega quando o velho se despede, especialmente os velhos padrões de condicionamento. Aprendi também que é preciso muita força para deixar quem amamos na certeza que a conexão se estabelecerá em todas as dimensões da nossa existência, pois, para o amor, não existem barreiras.

A morte, com toda a sua beleza, me fez sentir o verdadeiro sabor do amor incondicional e tangível. Para atravessar o medo da morte, devemos carregar a certeza de que estamos vivendo esse amor e de que estamos fazendo tudo o que nos for possível para que essa chama se mantenha acesa, aconteça o que acontecer. É necessário também assegurarmos que a libertação desse corpo que carregamos é, muitas vezes, o único caminho para a iluminação de tudo o que ainda iremos trilhar. O desaparecimento do “eu” é a inocência.

Não devemos amar o próximo na condição de nada, apenas de sermos felizes e de que o outro seja feliz também. Amar em liberdade é respeitar todos os processos, mesmo aqueles que costumamos demorar para entender, pois só o amor nos liberta de qualquer dor, especialmente daquela que ainda teimamos em não aprender: a dor do apego emocional, físico e material.

Nos apegamos por acreditar que, caso aquele ser não esteja mais entre nós, o amor que sempre esteve ali presente irá ser rompido. Nos esquecemos de que não somos um corpo, e sim de que o temos para fazer dele o nosso instrumento de manifestação, que somos verdadeiramente é uma Alma. Apenas o nosso corpo é mortal; a nossa essência é imortal. Nós viemos do desconhecido e avançamos para o desconhecido. Esse movimento do desconhecido para o conhecido e do conhecido para o desconhecido é capaz de nos iluminar, porque a vida nada mais é do que uma escola aonde se vem para aprender.

Quando lutamos para conquistar o amor de alguém, paramos de perceber que o amor é nosso, que vem da gente e sai da gente para o mundo. Não deve existir nenhuma pressão para se entregar a esse amor, que é a nossa maior fonte de energia. Ele independe de tempo e espaço para existir; ele não precisa nem mesmo da carne para existir, pois ele habita no campo sutil que carregamos dentro de nós mesmos - o nosso sentimento.

Nunca nos sentiremos prontos para uma despedida, mas ainda temos como nos surpreender com nós mesmos quando ela se fizer urgente. Deixe nascer em você a segurança e a confiança da conexão já estabelecida pelas almas que se uniram, pois ela irá seguir para além da vida. Estará presente em você como você continuará presente no outro, e suas revelações não deixarão de existir, só serão mais sutis; se transformarão em plena natureza. Entregar, aceitar, confiar e agradecer é saber deixar da terra o que tiver que ser da terra e entregar aos céus o que tiver que ser do céu. Somos todos parte de um todo.

É essa segurança que nasce de dentro dos nossos corações e que nos faz perceber que o que se vive na materialidade é a nada mais que a simples presença. Então, porque ainda perdemos tempo estando onde não queremos estar? Estar no presente é estar consciente de nossas escolhas e inteiros onde quer que estejamos. É aprender com a experiência do outro e somar com as nossas. A experiência de um valerá por todos, pois estamos aqui com o propósito de amar e servir. Seja no exemplo ou nos ensinamentos, estamos sempre aprendendo.

Nada nos chega por acaso nesse plano onde tudo é permissível e possível de acontecer. Reconhecer a sabedoria que carregamos em momentos de dificuldade e a força que surge das cinzas é trazer a certeza de que somos feitos de luz e amor, mesmo que ainda possamos carregar tantas sombras. Elas só existem porque estamos aqui para evoluir.

Se perdemos algo que julgamos importante e insubstituível para nós e só conseguimos enxergar aquele acontecimento como uma perda, passamos muito tempo reclamando da vida. Por fim, nos esquecemos de observar o que ganhamos com aquela perda inicial. Afinal, tudo o que se perde fora se ganha por dentro. Transmutar as sensações de abandono, escassez, falta de afeto e tristeza é também querer sair da nossa zona de conforto e enfrentar com coragem os desafios que a vida nos traz. Se insistirmos no erro, podemos até adoecer.

Se ainda não se sentirem prontos para transcender as sensações densas, silencie e respire. O silêncio é estar em si mesmo. No entanto, não permita que os medos lhes paralisem. A vida é um sopro que precisa ser muito bem aproveitado para que o Universo conheça toda a nossa potencialidade. Demora um tempo até nos redescobrir e até tirar todos os véus que colocamos em nossa frente... São sempre tantas camadas antes de chegar ao nosso verdadeiro Eu... É preciso dividir ou esvaziar para encontrar o inteiro.

Encontre o seu caminho do meio na grande polaridade da vida.

Tudo e todas as coisas que estão no nosso caminho - sejam aquelas pessoas que já existiam e que nos acompanha desde o nosso nascimento, seja aquela pessoa que acabou de conhecer e que escolheu sentar ao seu lado no banco do ônibus, seja apreciando a renovação da natureza no nosso dia-a-dia, seja observando o instinto animal pela sobrevivência e proteção - estão ali para nos ensinar alguma coisa, assim como também os ensinamos. Basta estarmos conscientes.

Tudo o que vive em nossa memória continua vivo. Quais lembranças você quer ter da sua própria vida? Que legado gostaria de deixar para as pessoas com quem você convive? Uma coisa é certa: precisamos aprender a estar na totalidade da nossa existência, amando o nosso momento presente, e a amar o outro em total liberdade para que ele possa fazer suas escolhas e, ainda assim, vocês seguirem se amando. Com isso, ensinamos o outro a ser livre e a estar sem medo. Por consequência, desfrutamos dessa mesma liberdade que tanto buscamos.

Deixamos de compreender a passagem das pessoas em nossas vidas quando nos falta o centramento. O ódio é primo-irmão do amor ainda não revelado; o perdão é a chave para o alcance da nossa plenitude; o desapego é o segredo para a libertação. Faça você o seu ingrediente para ser feliz, pois você é o seu próprio alquimista e sabe todas as respostas em seu interior. Porém, não se engane: é preciso muita coragem para lutar pela vida e mais ainda para nos despedirmos de quem amamos.

Às vezes, nos achamos tão especiais e tão raros que, então, seria melhor se estivéssemos apenas com nós mesmos. Com isso, perdemos a chance da grande magia do compartilhamento e da cumplicidade se apresentarem, pois no compartilhamento, a vivência do outro serve tanto para você, que acompanha, quanto para quem a experiencia. Ganhamos, assim, a oportunidade de não mais precisar passar por aquele tipo de situação e, se ainda necessário for, nos sentiremos mais preparados quando chegar a nossa vez.

Outras vezes, compartilhamos tanto tudo pelo mundo afora, que esquecemos de olhar para dentro. Com isso, perdemos a confiança em nós mesmos e na legitimidade dos processos que nos são colocados para que possamos vencer a nós mesmos. Todos podem lhe abandonar um dia, menos você mesmo. Isso não significa que deixaram de te amar, mas que eles chegaram ao fim das suas missões em vida. Importante é que nunca nos abandonemos.

Tanto o medo de se doar para o outro quanto o medo de se doar a si mesmo podem provocar dores emocionais, físicas e psicológicas. Viemos ao mundo com uma única missão: a de sermos felizes. O desvio desse caminho é o que nos leva ao sofrimento. Só seremos verdadeiramente felizes quando passamos a acreditar em nós mesmos e em nossa capacidade de transformação; quando estivermos felizes não apenas pelas nossas conquistas, como também pelas conquistas do outro.

Mesmo na aceitação dos encontros e desencontros, ainda é preciso deixar sair todas as lágrimas e todos os sorrisos de alegria, toda a gratidão e toda e a saudade. É preciso deixar que essas energias circulem pelo nosso corpo e não estacionem nunca. Assim, quando a saudade invadir a sua casa sem pedir licença e tomar conta do seu ar, eleve seu pensamento e logo virá a certeza de que não existem perdas nessa vida - estamos sempre ganhando algo.

Somos a manifestação do divino em nós. Criamos a nossa própria realidade quando nos mantemos criativos e fazemos uso da nossa imaginação, que é a união do divino com o seu coração. Quando nos percebemos no tudo e com o todo, nos tornamos uma coisa só. Apostar nos encontros é apostar nas bênçãos que nos são trazidas diariamente. São sempre tempos de descobertas.

No encontro entre a vida e a morte, eu aprendi que o segredo é amar sobre todas as coisas e sem nenhuma condição de continuar a existir. É preencher todos os novos espaços vazios que habitam em mim e ter a sabedoria de que, um dia, tudo chega a um fim para dar início a um novo começo. Somos todos impermanentes, e não há despedidas no amor.

Eu desejo que vocês encontrem a total plenitude da manifestação do divino que habita em cada um de nós, já que a vida está sempre nos convocando a Ser. Que possamos, todos, atravessar com coragem e destemor os nossos mais assombrosos medos e que tenhamos sempre vontade de nos olhar no espelho sem mais os véus da ilusão, que nos impedem de voar. Que todos os seres sejam ditosos. Que todos os seres sejam livres. Que todos os seres sejam felizes. Que a transmutação aconteça cada vez mais rapidamente para que possamos estar em serviço, de coração aberto e acolhedor para nós mesmos e para o outro. Sejamos os bem-vindos onde quer que estejamos.

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