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  • Fernando Borges

Minha foto é arte? | Por Rafaela Zakarewicz



Se arte, do latim ars, é a forma como o ser humano expressa suas emoções, sua história e sua cultura por meio de valores estéticos, então, pra mim, a fotografia é arte.

Embora essa seja a definição histórica, conheço fotógrafos que estão se questionando se o que produzem é arte, ou que acreditam que artista é quem tem reconhecimento no meio. E conheço fotógrafos que acreditam que a fotografia é arte quando é “bela” ou “autoral”.

Mas pra mim, a fotografia é expressão artística, é a maneira que o fotógrafo encontrou de se expressar, e a preocupação não deveria ser entre belo e feio, “autoral”, “documental”, ou qualquer outra designação que na verdade soa como marketing. Pra mim a preocupação do fotógrafo deveria ser apenas com a autenticidade do seu trabalho.

Ninguém pode determinar que uma foto não é arte baseado em juízo de valor. Muito menos quem se posiciona como “mestre” e “artista” quando na verdade a sua foto é apenas mais comercial e não mais autêntica ou original. E acreditem, na maioria das vezes, é a relação comercial ou “influência digital”, que está causando a diferença entre os fotógrafos.

Na arte, julgamentos de bom e ruim são juízo de valor. Bonito e feio, é tão relativo quanto subjetivo.

Van Gogh tinha o seu irmão pra mecenas, que financiava sua carreira pois ele mesmo não acreditava ser possível viver da arte. Passou fome, viveu em barracos, tinha crises de humor (ou talvez o que hoje chamamos de bipolaridade.) Sofria com crises depressivas e miséria.

Van Gogh morreu e tinha vendido apenas um de seus quadros. E exatamente cem anos depois, em 1990, o quadro “Retrato do dr. Gachet”, foi vendido por mais de 80 milhões de dólares.


Hoje Van Gogh é considerado gênio, um dos maiores representantes da História da Arte. Na sua época não era artista e o reconhecimento o tornou? Será que o problema em não vender suas obras estava nas pinturas? Ou será que aquela sociedade não estava pronta pra receber como arte o que ele produzia? Tantos serás e nenhum deles pra mim torna Van Gogh artista só depois do sucesso, basta ler o livro Cartas para Théo ou qualquer biografia, pra entender que desde sempre ele se preocupava com a autenticidade do que produzia e com a verdade do “eu artista” que ele buscava lapidar.

Traçando um paralelo da pintura com a fotografia, vale refletir alguns pontos.

Será mesmo que toda fotografia que não tem sucesso comercial é ruim? Será que precisa se tornar “comercial” pra que seja bom? E o que é comercial e autoral nessa bagunça toda? Será que todo fotógrafo, com sucesso comercial, é quem deve mesmo ditar as regras da estética? Será que não estamos tornando a nossa geração de fotógrafos um exército da reprodutibilidade de cenas, poses, tons e cortes?

No século XIX a fotografia seguia as tendências naturalistas, muito mais preocupadas com o documental que o criativo. Nessa época, Lewis Carrol criticou a fotografia "borrada" de Margaret Cameron. O estilo da fotógrafa foi um marco pra época. Falta de foco, manchas, digitais no processo de impressão, tudo isso era muito criticado sim, mas hoje ela é uma das referências mundiais da fotografia clássica.

É claro que existe o lado técnico e estético na fotografia, ela é uma linguagem visual, que possui regras, assim como a linguagem escrita.

Ser alfabetizado não torna ninguém escritor. Assim como se dizer fotógrafo não torna ninguém um artista.

Se eu não ordenasse meu raciocínio, se não escolhesse as palavras certas, colocasse vírgulas e pontos, esse texto não faria sentido. Aliás, quantas pessoas tem ideias e pensamentos incríveis, mas escrevem de forma tão confusa que a mensagem fica perdida?

O mesmo se passa com a fotografia. Muitas vezes, a foto não é ruim, mas falta lapidar, ajustar vírgulas, ajustar os parágrafos, organizar as palavras. Falta revelar a fotografia, alinhar elementos, ajustar composição, melhorar pós produção, aperfeiçoar a direção…

A fotografia busca transmitir uma mensagem e essa mensagem precisa ser transmitida com clareza. Por isso, é primordial estudar luz, cor, forma, texturas, pontos, linhas... mas toda essa linguagem vem da alma de cada indivíduo.

Os tons pasteis ou saturados, por exemplo, muitas vezes tem a ver com sentimentos como bucolismo, alegria, vivacidade. O contraste quase sempre carrega autoconfiança e insegurança como medidas. As linhas e perspectivas podem demonstrar muito mais a racionalidade do que destreza de gênio. Assim como a luz pode esconder, projetar ou refletir a sombra de cada indivíduo. Estudar psicologia e arteterapia sempre foi fundamental pra que eu não nunca julgasse apenas entre: “bonito”, “feio”, “que foto brega”, “que foto incrível”.

Sempre quis ir muito além do que esse “Tribunal da Inquisição Fotográfica” dita como regra. E foi estudando Freud, Jung e a obra de grandes pintores que encontrei sentido pra tudo que faço hoje no Alma Criativa, pra todo trabalho que busca resgatar o artista dentro do fotógrafo.

E resolvi escrever sobre isso pois nos últimos tempos vejo que a fotografia no Brasil tem sofrido algumas influências pontuais e não tão legais assim: A reprodução fotográfica que workshops causaram, e a imitação da estética estrangeira sem compreensão da nossa própria cultura.

Pra ilustrar melhor o que acredito, a grande maioria dos workhops não ensinam sobre processo criativo, na verdade muitas vezes nem o “professor” conhece seu próprio processo, e falo isso por ter convivido com a maioria deles nos bastidores. Poucos sabem o que torna tão especial assim o que fazem. Então por falta de conhecimento mesmo, ele busca no workshop ensinar como faz seu tratamento, como faz para dirigir, quais elementos estéticos gosta… e como diz um amigo “macaco vê, macaco repete”.

Se o fotógrafo que está ali, louco pra aprender, aprende apenas isso, ele vai repetir o que aprendeu. Simples assim. Mas se fosse ensinado sobre processo criativo, sobre o motivo pelo qual o autor prefere linhas e perspectivas, planos abertos e não fechados, talvez o aluno entenderia como tirar proveito e produzir algo autêntico.

A nossa educação nunca buscou estimular a criatividade e o processo autêntico, e é natural que mesmo na área criativa exista esse problema no ensino. Por isso, sou contra workshops que apenas vomitam regras estéticas em seus alunos, ou que fazem leituras baseadas em achismos, que muitas vezes levam fotógrafos a uma frustração imensa e minam sua capacidade criativa.

Precisamos entender que a fotografia é muito mais um processo criativo de dentro pra fora. Quanto mais o fotógrafo se dedicar a imprimir sua identidade, mais autêntico será, mais possível será ser reconhecido pelo que faz. E pra mim que isso ocorra precisa olhar pra dentro e não pra “professores”, precisa aprender a olhar o espelho e não se espelhar no trabalho dos outros, que muitas vezes são já reflexo de outros trabalhos por sinal.

E sobre as influências estrangeiras, me questiono muito sobre o que estamos imitando e o que estamos fazendo com a nossa própria cultura. Um Brasil tão cheio de riquezas naturais, invejadas inclusive por gringos, e buscamos imitá-los em paisagens que ignoram nossa brasilidade por completo. Tons que esfriam a pele e as cores, tons que fazem sentido lá fora, mas que pra mim, está muito longe de nossa essência… Paisagens e cenários que buscam imitar um “lifestyle” americano, australiano, europeu, mas que não representam tanto a nossa cultura.

Que país tem tanta riqueza cultural quanto o Brasil? Temos tantas possibilidades e cenários pra explorar. Lembro até hoje de estar em Logroño, na Espanha, com um dos grandes fotógrafos de casamento da Europa e ele me dizer “Os brasileiros ignoram a beleza do próprio país, meu sonho ter aquelas praias e paisagens pra fotografar, ou esse jeito caloroso de vocês no dia a dia. Isso já é incrível pra fotografar”. E matamos isso, imitando a frieza em poses e até mesmo na pós produção. Engessamos o que nos torna autênticos.

Tivemos colonização europeia que nos deu heranças culturais incríveis, assim como as heranças indígenas ou africanas estão enraizadas na cultura do norte e nordeste, em especial. E onde está tudo isso na nossa fotografia?

Avalie os fotógrafos do sul e avalie os fotógrafos do nordeste, perceba a diferença. Não só pela herança mas por outro motivo óbvio também, geográfico. A luz que temos de ponta a ponta do Brasil também varia. E o que nos proporciona uma capacidade de fazer a fotografia brasileira tão rica, está nos condicionando a uma fotografia “industrializada”.

É claro que a moda está aí, seja na pós ou na direção de cena, e temos a tendência de imitar o que “dá certo”, mas se você reparar, as vezes “deu certo”, pois era autêntico daquele autor.

Uma crise que é normal existir entre fotógrafos, especialmente quando iniciam, vem de comparações sem avaliar que muitas referências se tornam referência pela autenticidade do que fazem. E digo mais, a maioria deles, teve reconhecimento e sucesso depois de 2 a 3 anos ralando muito!

Buscar compreender isso é importante. Somos e produzimos baseado nessa essência, assim como consumimos baseado nisso. E somos fruto da evolução.

Se você tem menos de dois anos na fotografia, e está desesperado por não ter descoberto ainda sua assinatura, sua identidade, ou não tem ainda os clientes que sonhava, acredite, seu problema não é a fotografia, é a ansiedade. Não conheço um fotógrafo que tenha tido reconhecimento antes de um ano ralando muito! E olha que conheço, bem de perto, a maioria dos fotógrafos que hoje são referência no mercado e posso afirmar, quase todos só conquistaram isso depois de 2 ou 3 anos de muita lenha na fogueira!

Tente compreender, quem é você como artista, quem é você como ser humano. Não entre nessa paranoia de classificar ou buscar classificações. Fuja de avaliações baseadas em juízo de valor sem levar em consideração quem é você ou tudo que faz de você um artista.

Imite sim, imite muito, imitar faz parte do aprendizado! Mas aprenda, evolua, transcenda!

E acima de tudo, corra léguas de experiências, vivências e coisas do tipo, que minam sua autoestima, que reviram sentimentos ou que acessam dramas coletivos buscando na catarse apelo emocional. Se quer ser revirado emocionalmente, busque um psicólogo, um arteterapeuta, alguém com responsabilidade e capacidade pra fazer imersões desse tipo. Um fotógrafo, por mais talentoso e iluminado que seja, não é guru. Aliás, você não precisa de um guru, não precisa de um mestre, não precisa de nada além da máxima “Conhece-te a ti mesmo”.

Aprenda todos os dias algo novo sobre você, essa é a melhor forma de fazer a sua fotografia evoluir.

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