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Identidade: sua digital no trabalho fotográfico | Por Alessandra Barreto


QUEM VOCÊ É NA PALMA DA MÃO

Identidade é um daqueles conceitos que podemos encontrar várias definições: no campo da psicologia, filosofia, antropologia e outros. No senso comum, podemos entender que se trata apenas de um documento de identificação que tem a função de comprovar que alguém é verdadeiramente quem diz ser. E também podemos afirmar que é um conjunto de qualidades e características particulares de uma pessoa que torna possível sua identificação e diferenciação.

Outra forma de nos identificarmos é com a nossa digital. Não existe digital igual, nem em irmãos gêmeos, literalmente cada um tem uma marca única que o diferencia de qualquer outro ser humano. A digital é tão importante, que nos casos em que uma pessoa não domina a escrita, sua digital é usada como assinatura; quando uma pessoa é fichada na polícia, suas digitais são coletadas.

Quando pensamos em “identidade fotográfica”, pensamos naqueles que conseguem imprimir sua marca, a ponto de sabermos o nome do artista por reconhecer suas características em sua obra. É impossível olhar para um Caravaggio, por exemplo, e não saber que de quem se trata.

IDENTIDADE E INQUIETAÇÕES

Uma das minhas inquietações nos últimos tempos e que tem me compelido a estudar cada vez mais, está na ordem da grande profusão de imagens iguais que se tem produzido no mundo da fotografia. O que me inquieta e até incomoda intimamente, é a capacidade de reproduzirmos ideias alheias em detrimento de criar as nossas. Vejo comentários de que “está tudo igual” e percebo que está mesmo.

E ai, me pergunto, porque está tudo tão igual se somos diferentes? Venho tentando construir a resposta para essa minha inquietação e acho cada vez mais perguntas, mas também visualizo uma luz no fim do túnel.

Não quero que vocês se sintam intimidados por essas minhas palavras iniciais, pelo contrário, quero saber o que você pensam e sentem sobre isso. Carl Jung disse que nascemos originais e morremos cópia, é da natureza humana aprender por repetição, observamos como é que se faz e tentamos reproduzir, mas ao fazermos isso imprimimos a nossa marca, reconstruímos a maneira de ser e fazer determinada coisa. Não tenho a ilusão de criar do nada, mas é sábio seguir o conselho do Austin Kleon e roubar como um artista, que não significa copiar simplesmente, mas recriar, reformular, aperfeiçoar.

Tudo isso dá trabalho, necessita desejo e vontade. Haverá aqueles que se sentirão confortáveis “copiando”, afinal, pra quê mexer em time que está ganhando? Se eu tenho a receita que deu certo, pra quê arriscar a minha? Se isto é feito de forma consciente, não me atrevo a acusá-lo de nada, mas o que vejo na prática são pessoas copiando, e tendo a ingenuidade de achar que estão criando. E não há nada mais ilusório que não conseguir enxergar as coisas como elas são de fato.

Gosto muito das palavras de William Klein e acredito que elas nos ajudem a caminhar mais um pouco em nossa discussão: “Seja você mesmo. Eu prefiro muito mais a ver alguma coisa, mesmo que é desajeitada, mas que não se pareça com o trabalho de outra pessoa”.

Seja você mesmo!!! Tenho certeza que vocês já ouviram esta frase, parece fácil, mas é muito difícil ser você mesmo verdadeiramente! É preciso um querer gigantesco para enfrentar os próprios medos de se conhecer e ter a coragem de avançar. Esse processo é doloroso e profundo, cheio de idas e vindas, mas necessário. Não quero que fiquem assustados, mas não há como pensar na constituição de uma identidade fotográfica sem pensar na própria constituição do homem enquanto sujeito que se reconhece e se identifica.

Corra mais riscos. Passamos a vida tentando nos proteger, da chuva, do frio, colocamos grades em nossas casas, mas ainda assim nos arriscar é inerente a viver. Quando trocamos de emprego, pedimos demissão ou aceitamos uma proposta, estamos correndo riscos. Não há como mudarmos uma determinada condição sem escolhas, e escolher envolve arriscar. Buscar a sua identidade, imprimir a sua digital é se arriscar a ser incompreendido, mas ainda assim vale a pena tentar encontrar o seu olhar. Que você faça uma série e que ela não tenha sucesso, mas ainda assim seu valor está em se arriscar, em tentar. Não se limite a ser cópia! Crie suas próprias fórmulas.

INSPIRAÇÃO X REFERÊNCIA

As pessoas confundem inspiração com referência e talvez isso contribua para a grande enxurrada de cópia que vemos por ai. Inspiração é algo de foro intimo, é o que nos move, que faz com que levantemos da cama todos os dias. Está na ordem dos sentidos, das emoções. Uma mulher grávida me inspira, pois me remete à vida. Meu filho me inspira, pois na relação que construímos me tornei uma pessoa melhor. A natureza me inspira profundamente, meus pés descalços me conectam com a terra. A referência é o norte, a bússola, o ponto de partida. É nosso foco de reflexão, diálogo, para que possamos iluminar nossos passos. A referência é identificar aqueles que nos precederam, é dar valor aos mestres que mesmo distantes historicamente podem nos ensinar muito. Todo aspirante a fotógrafo tem por tarefa inerente conhecer a história da fotografia e aqueles que a construíram.

O CAMINHO EM BUSCA DA IDENTIDADE

O primeiro passo na busca pela sua identidade fotográfica é ser honesto consigo mesmo: “Fotógrafos confundem a emoção que eles sentem enquanto tiram a fotografia com o julgar se a fotografia é boa” – Garry Winogrand.

Devemos gostar daquilo que fazemos, mas não podemos nos deixar cegar pelas nossas emoções. Ter uma atitude autocrítica é benéfica para nos trazer lucidez ao avaliar o que produzimos.

Uma alternativa é termos alguém em que confiamos e pedir que sinalize o que está faltando em nosso trabalho. É preciso ter coragem para ouvir a resposta, nem sempre estamos preparados para ouvir uma crítica, mesmo que o objetivo seja positivo.

Algumas pessoas postam fotos em grupos e pedem opiniões, questiono se esta é a melhor maneira. As pessoas que irão emitir alguma opinião não te conhecem, não conhecem suas razões e isto pode tornar suas avaliações meras opiniões sem fundamento algum, próximo ao “achismo”.

O segundo passo, é se conhecer e se reconhecer em sua obra. Richard Avedon disse “Meus retratos são mais sobre mim do que sobre as pessoas que fotografo”. Gente, isso é lindo! Poder se enxergar em tudo que faz, perpetuar a sua existência através do seu olhar sobre o outro. E ainda assim, conseguimos identificar nos retratos feitos por Avedon, como o de Marylin Monroe por exemplo, a identidade genuína do fotografado.

A fotografia está na ordem da subjetividade. O que define se uma fotografia é boa ou não, no senso comum, se aproxima do gosto pessoal, mas para aquele que se julga fotógrafo, é inadmissível que olhe uma imagem e conclua apenas como gosto ou não gosto. Ele tem obrigação de saber por que gosta e por que não gosta !!! Dominar a linguagem visual parece ser uma boa forma de mergulhar mais profundamente no entendimento do que uma imagem realmente deseja expressar.

A identidade fotográfica é um processo exclusivo de cada indivíduo e não acontece por acaso. É preciso querer! E leva tempo. Ansel Adams, fotógrafo americano, trabalhou arduamente e levou mais de 20 anos para alcançar seu objetivo (dentre outros) de construir uma fotografia enquanto arte pura, capaz de traduzir suas emoções fielmente para a imagem captada.

DESENVOLVENDO NOSSA IDENTIDADE FOTOGRÁFICA

Pensei em alguns exercícios para contribuir com vocês nesse processo de desenvolvimento da identidade fotográfica:

-> Sistema de listas. Fazer lista é uma tarefa fácil, simples, que organiza os pensamentos e é muito útil quando não sabemos por onde começar, seja um trabalho, um projeto, ou para organizar os livros que queremos ler, os filmes que queremos assistir.

Sugestões:

1- Listar coisas que gosta e que não gosta;

2- Listar as características da sua fotografia;

3- Listar os fotógrafos que admira; depois, as características de seus trabalhos;

* Cruze as informações das listas 2 e 3, e veja o que há em comum entre elas.

4- Durante 7 dias, registre ao final do dia tudo que vier à sua cabeça, palavras soltas, frases, pensamentos, sensações. Depois, faça uma análise simples e veja o que mais apareceu, o que te surpreendeu.

-> Faça um desafio criativo. Esse desafio consiste em limitar seu tempo de execução, obrigando você a pensar rápido e conseguir improvisar. Atenção! A quantidade de fotos que deverá produzir em cada dia deve corresponder à mesma de clicks executados, como se estivéssemos fotografando com filme.

1º dia – 36 fotos coloridas/pessoa– 20 minutos;

2º dia – 24 fotos coloridas/pessoa – 15 minutos;

3º dia – 12 fotos coloridas/pessoa– 10 minutos;

*Revise as fotos.

4º dia – 12 fotos em preto e branco de objetos/coisas – 10 minutos;

5º dia – 24 fotos em preto e branco de objetos/coisas – 15 minutos;

6º dia - 36 fotos em preto e branco de objetos/coisas – 20 minutos;

*Revise as fotos.

-> Faça uma pesquisa sobre um fotógrafo desconhecido por você;

-> Faça uma série fotográfica;

-> Faça autorretratos;

-> Faça um ensaio pessoal. Escolha um fotógrafo com o qual se identifique e o contrate para fazer um ensaio só seu. Será ótimo passar por essa experiência de estar à frente da câmera!

-> Fique um mês sem olhar fotografias de ninguém, esvazie sua mente e preste atenção em seus pensamentos.

Para finalizar, deixo uma frase do fotógrafo e escritor William Albert Allard:

“Você deve exigir o melhor de si. Você deve começar a procurar por imagens que ninguém mais pode fazer. Você deve aproveitar as ferramentas que tem de maneira cada vez mais profunda.”

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