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  • Fernando Borges

Des(construção) | Por Amanda Morais


Desde muito novos somos pressionados a decidir o rumo de nossas vidas. Uns já começam a trabalhar cedo, outros começam a se preparar para a universidade, sempre com aquela dúvida tão repetida por todos ‘’o que eu vou ser quando crescer?’’ Interessante notar como se segue sempre esse modelo. " O que eu vou ser quando crescer?’’ nos traz a ideia de algo definido e fechado, certo e imutável, de sucesso e total maturidade, o topo da construção, quando você olha pra si e espera enxergar alguém cheio de convicções e certezas.

Sob uma visão Fenomenológica (uma vertente da Psicologia), o ser humano é uma permanente construção, não existe um modelo pronto do que o individuo deve ser, do padrão a chegar, do topo da perfeição e da conquista, existe apenas a elaboração individual, como cada um age no mundo, como cada um se constrói no mundo, de forma singular e subjetiva.

Quando chegamos na idade adulta, tudo parece mudar, não existe aquele real foco de vida, como uma formula mágica, a gente se depara com dúvidas, com mudanças de ideia, se depara com outras verdades, com outros desejos, outros sonhos e isso passa ser assustador. É que aquele sonho encantado de tornar-se um adulto formado, e finalmente, SER alguém, cai escada a baixo.

Existe ai um outro desafio, o de aceitar o que te acontece, abraçar as duvidas, as mudanças radicais, o desafio de se reinventar, de quebrar essa necessidade de ter o controle sobre tudo, de não aceitar mudar de ideia, mudar de trabalho e, às vezes, jogar tudo para o ar e meter a cara naquele sonho que você achava louco demais, e se permitir conhecer outras versões de si mesmo, na busca pela autenticidade.

O que o outro visualiza é a forma dele e nunca como sou.

Seguindo nessa perspectiva, temos duas questões a respeito da fotografia, uma delas é como a visão sobre ela vem de forma pronta muitas vezes, com sequências e métodos específicos para seguir, onde a grande maioria não questiona ou adapta aquela técnica à sua forma, ao seu estilo próprio.

Outra questão que pode ser em qualquer âmbito artístico, é quando você muda totalmente ou parcialmente a sua linguagem, às vezes vivendo crises intensas com essas mudanças, não sabendo lidar com essa modificação, não conseguindo colocar em prática aquilo que pulsa dentro de si pelo medo do que vão achar ou até mesmo preconceito com si mesmo.

Na minha vida, por exemplo, eu vivi crises intensas diversas vezes, onde eu parava de fotografar, de criar, onde o próprio ‘’insight’ me trazia ansiedade e diversos sentimentos ruins, eu dava uma pausa, parava de criar durante um tempo, tentava recuperar as minhas energias, e depois aquelas crises passavam e eu retornava a tudo. Só que eu te digo uma coisa, qual o problema de passar por crises e talvez pausar? Esperar um pouco, acumular energias mais uma vez... É a nossa forma de existir, é o que precisamos fazer naquele momento.

Você compreende que isso é ser humano? Nossa construção diz que há um problema nisso, afinal, ‘’nada pode dar errado’’ ‘’somos adultos, né?’’ ‘’isso que eu escolhi pra vida’’ ‘’não posso enjoar daquilo que tanto estudei’’, nós podemos sim, nós não somos controlados, somos seres que se modificam o tempo todo.

Aceite os seus processos, compreenda-os, acolha-os, descanse a mente um pouco, não cobre por algo que é humanamente impossível, portanto, se quiser fotografar casamento, fotografe, se quiser fotografar nu, fotografe, se quiser fazer os dois, faça, você é livre para se reinventar quantas vezes quiser, você é SER humano, nunca é algo, mas sempre ESTÁ SENDO ALGO, naquele exato momento.

Abertura para a existência, percepção e construção:

Acredito na importância da nossa percepção em todos os âmbitos, e principalmente estimula-la, nas artes é ela que vai indicar a forma que veremos os objetos, as pessoas, o universo, e essa percepção também é construída através dos nossos órgãos de sentido (audição, tato, olfato, paladar, visão) em contato com a cultura/ambiente/estímulos presentes de onde estamos inseridos, por exemplo, o quanto estimulados a nossa visão e o que temos de acesso a ela, um ambiente com muitos estímulos desenvolvem áreas, um ambiente sem muitos estímulos deixa de estimular certas áreas, tudo variando entre os estímulos ambientais e nossos órgãos receptores.

Os órgãos sensoriais são os nossos tesouros, são as portas e janelas de nossa casa, lá estão os segredos para nos desenvolver e captar conhecimentos. Agora me diz, é possível alguém ficar imóvel a essa construção? É possível ser o mesmo todos os dias? É possível chegar a uma formula exata de si, ou o estágio de homem formado e definido?

Nós estamos abertos para o mundo o tempo todo.

Nós estamos em constante modificação.

E isso é incrível.

Crises Internas – Construção do Trabalho Autoral

Passei por diversas crises, me modificando tão radicalmente que eu não estava conseguindo gerir, comecei a somar isso tudo e sofrer muito de ansiedade, e eu acabei colocando toda a minha confusão na fotografia, todas as dores, toda a ansiedade, todos os questionamentos, todas as dúvidas, todo descobrimento, todo amor partido, eu comecei a contar a minha história, comecei a contar a minha existência. O colocar para fora veio me curando, o método catártico veio me aliviando, e veio trazendo o meu estilo atual de fotografia, que dei o nome de ‘’Filografia’’, junção de Filosofia com Grafia, onde corresponde à ‘’Palavras e Fotografias sobre a existência humana’’, contando minha história, e contando as angústias da própria existência.

Hermenêutica: O ser humano encontrar o sentido através dele mesmo.

A busca da autenticidade está dentro de si.

Somos moradas de milhares de sentimentos, e eles podem ser ressignificados.


“humanos se prendendo de viver por medo”.

Vemos alguns artistas com as suas próprias características:

‘’Um dia estava triste com as minhas fotos porque elas saíam iguais às dos meus colegas e eu gosto de ser diferente. Então chutei a lata em que estava fazendo a foto e ela caiu em outra posição, mas eu continuei a fazer a foto. A imagem sai muito louca, eu estava fotografando uma moto e as rodas ficaram em cima, embaixo e dos lados. Então fui para casa com a lata, entrei no meu quarto e minha janela estava aberta, resolvi testar fazer a mesma técnica de vários ângulos na mesma imagem e assim comecei a sempre tirar fotos incríveis. ’’

‘’Quando fiz essa foto pensei que o homem que aparece nela ia ficar se mexendo porque estava bêbado. E a foto ia ficar tremida, pois para fazer a foto com a lata precisamos deixar um longo tempo de exposição. Então pensei que se tivesse que dar uma legenda ela seria: Minha alma está confusa. ’’

‘’O que é simplesmente uma porta para uns pode ser liberdade para outros. Ela pode significar o caminho para uma vida nova. ’’

Renato Nascimento (Livro: Mão na lata e berro d’água – um ensaio fotográfico sobre a obra de Jorge Amado)

‘’O caráter folclórico de sua obra e sua decisão de apresenta-la em molduras populares feitas de estranho, adornadas com conchas, veludo, ou às vezes gesso pintado com padrões de cerâmica Talavera, eram parte da postura de amadora – como se, deliberadamente, ela preferisse relegar sua arte ao domínio do ‘’charmoso’’ e ‘’exótico’’, a salvo de críticas e de competição. Ela preferia ser vista como uma personalidade sedutora e encantadora a ser julgada como pintora. Suas pinturas expressavam, da maneira mais vívida e direta possível, sua realidade; criá-lás era apenas parte de – e não mais importante do que – criar e ser Frida Kahlo.’’

‘’Eu nunca soube que eu era surrealista até André Breton me dizer que eu era. Eu mesma ainda não sei o que sou.’’

’o primitivismo de Frida é uma postura irônica, que lhe permitiu a um só tempo exibir, mascarar e zombar dos tormentos íntimos de seu próprio eu.’’

(Livro Frida Kahlo – Biográfico)

VÁ E FAÇA:

Se descubra fazendo, em dores, confusões, descobertas, desconstruções, fazendo supostamente ‘’errado’’, mas na melhor forma si, supostamente ‘’correto’’, mas na melhor forma de si, com borrões, com a ‘’perfeição’’, com o modo ‘’dark’’ de ser, ou com o modo ‘’luz laranjinha’’ de ser, apenas se descubra a cada dia, e livra-se dos rótulos que possam te aprisionar em formas que não te cabem.

  • Você nunca é o mesmo, somos eterna modificação;

  • Faça o que você quiser, quando quiser;

  • Lembre-se: Você é humano!;

  • Seja autentico!;

  • Estimule os órgãos sensoriais, sempre;

  • Conheça artistas autênticos, e estude as suas características humanas;

  • Que a crise te indique um caminho;

  • Que a falta de compreensão com si mesmo não te impeça de pausar.

#fotografia #fotos #foto #desconstrução

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