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Entrevista com Tuane Eggers | Lampião 2018


Foto: Chana de Moura

Tuane Eggers, brasileira de 28 anos, graduada em jornalismo e fotógrafa autodidata. Seu trabalho é focado na fotografia analógica, geralmente com temáticas relacionadas aos fluxos da natureza e à impermanência da vida. Com um olhar único e delicado sobre o mundo ao redor, a Tuane Eggers apresenta um novo jeito de enxergar as pequenas coisas. | www.tuaneeggers.com

Quem é Tuane Eggers?

Acho sempre um pouco difícil isso de definir - ainda mais quando trata-se de me definir - porque prefiro as coisas abertas. Assim, vou citar uma frase que gosto muito, do Deleuze, que talvez diga um tanto mais do que eu mesma poderia explicar sobre esse sentimento: "Sou um composto de uma multiplicidade de presentes... é muito agradável saber isso."

O que é sonhar acordado para você? Onde está a beleza do universo?

Se me permitem, citarei aqui outro autor que gosto muito, que reflete sobre a fotografia de uma maneira muito bonita, com a qual me identifico. Maurício Lissovsky escreveu, em 2010, as dez proposições para a fotografia do futuro, e a oitava delas diz que toda fotografia está grávida de sonhos, já que os sonhos são a alma das fotografias. No momento em que o(a) fotógrafo(a) deseja eternizar uma imagem, ele(a) deseja também que esse olhar seja, algum dia, reconhecido e correspondido. Nesse sentido, o autor propõe que "Toda fotografia é o despertar onde as luzes do dia se misturam com fiapos de sonhos que nos escorrem por entre os dedos. Todo fotógrafo sonha acordado".

Acredito que a beleza está por todos os lados, tanto em tudo o que é grandioso e deslumbrante, quanto naquilo que nos escapa pelas bordas, pelas frestas do que é considerado importante pelo senso comum. Basta um pouquinho de atenção: a beleza requer um olhar atento.

Você fez faculdade de jornalismo, mas mesmo assim escolheu seguir carreira como fotógrafa, em algum momento durante o curso você descobriu que era isso que queria fazer ou sua relação com a fotografia é mais antiga? Qual foi o ponto decisivo para escolher a fotografia para o resto da sua vida?

Antes de iniciar o curso, já havia despertado em mim um interesse pela fotografia. Mas, como não havia a opção de cursar fotografia na universidade que havia perto de mim, acabei optando pelo jornalismo, tanto por ser uma área próxima, mas também por meu interesse pelo campo das ciências humanas de forma geral. Eu acreditava no jornalismo como uma ferramenta potente e transformadora, e poderia envolver também o estudo sobre as imagens. Hoje em dia, confesso, ando um tanto desencantada com a área, mas sei que foi um curso importante para a minha formação pessoal. O que sei sobre fotografia aprendi, em grande parte, de forma autodidata. É algo que aconteceu na minha vida por uma necessidade de me expressar, quando ainda era adolescente, naquela pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul, onde nasci e vivi até o ano passado.

Não sei dizer exatamente o ponto decisivo para a minha escolha - e talvez eu nem sequer tenha escolhido, mas sim a fotografia que me encontrou. Algo que posso afirmar é que a experiência de participar do filme "Os Famosos e os Duendes da Morte", de Esmir Filho, aos meus 18 anos, me fez acreditar mais em mim e no meu olhar fotográfico como possibilidade de caminhos a serem descobertos.

Após duas participações em longas-metragens de diretores renomados no Brasil, como Esmir Filho e Selton Mello, você pensa em seguir carreira? Como foi viver essa experiência, já que a fotografia é um pouco diferente de fazer cinema?

Como comentei na questão anterior, minha participação no filme do Esmir Filho foi algo muito intenso, em diversos sentidos. Quando filmamos, eu tinha 18 anos, vivia em uma cidade de 70 mil habitantes, chamada Lajeado, no interior do sul do Brasil. O cinema era todo um universo que eu estava tendo contato pela primeira vez, e que me abriu muito o olhar - inclusive, para o lado de dentro, no sentido de acreditar no meu trabalho fotográfico como algo potente. O filme me proporcionou tantas coisas lindas que eu nem conseguiria citar todas elas aqui - por exemplo, fez meu trabalho chegar ao Japão. E sinto que é uma obra que ainda segue e seguirá reverberando em muitos corações que se identificam com os sentimentos que eternizamos ali. Um exemplo disso foi o filme do Selton Mello, que surgiu depois de ele ter conhecido meu trabalho pelo olhar do Esmir, e que também foi uma experiência muito incrível.

Por isso, considero o cinema uma ferramenta muito potente, e quero estar cada vez mais próxima dela. Recentemente, trabalhei como fotógrafa still em alguns longa-metragens - o primeiro deles, inclusive, é o terceiro longa do Esmir - Verlust, que está agora em fase de finalização. Tenho gostado muito de atuar como still de cinema, mas meu desejo é me aproximar também da direção de fotografia.

Você já dominou o mundo com exposições na Inglaterra, Dinamarca, Índia e até no Japão, o que você espera da sua fotografia agora? Qual é o próximo destino?

Acho que essa expressão, "dominar o mundo", é um pouco forte para falar sobre fotografia. É claro que é algo muito lindo ver nosso trabalho chegar longe no sentido geográfico do mapa - inclusive, tenho um grande desejo de fazer residências artísticas em outros estados ou países, por exemplo. Mas, o que tem me interessado mais profundamente agora é chegar em lugares que a distância não poderia ser medida. Aqueles lugares que nem mesmo as palavras conseguem definir muito bem. E sentir que alguém se identifica com o meu olhar é o máximo que eu poderia desejar. Isso, pra mim, é das coisas mais bonitas que o fazer artístico pode proporcionar: alcançar os âmagos.

Por que você escolheu trabalhar com a fotografia analógica? Como funciona seu

processo de pós-produção? É você mesma quem revela as fotos?

Eu comecei a fotografar com uma câmera digital, mas ao longo do tempo, me encantei pelo universo da fotografia analógica. Eu ainda fotografo digital, é inevitável, mas o meu trabalho autoral é, sempre que possível, analógico. Penso que é outra relação de tempo, de materialidade. Enquanto a fotografia digital é um conjunto de pixels, a fotografia analógica é algo que pode ser tocado. No início, eu sofria um pouco pela minha ansiedade de querer ver logo o que eu tinha acabado de fotografar, mas percebi que é muito interessante esse lapso de tempo entre o momento da captação e o reencontro com a imagem revelada. Acredito que até a nossa relação com os erros torna-se diferente, já que aqueles registros são únicos e, muitas vezes, não temos mais chances de repeti-los. Pra mim, a fotografia analógica traz outro tipo de afeto pela imagem. Eu ainda não revelo meus negativos, mas é algo que eu gostaria muito de aprender.

Você ainda não teve a experiência de viver o Lampião, mas o que você espera?

Espero que minha participação no evento possa proporcionar bonitos encontros. Que minhas imagens possam se conectar com outros olhares sensíveis. Que elas possam despertar uma vontade de viver. Espero que meu fascínio pela natureza, pela vida e pela potência dos encontros reverbere em outros corpos. E sei que sentirei o mesmo com muitas das imagens que conhecerei por lá. Tenho certeza de que serão dias intensos cheios de lindas trocas!

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