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As correspondências interartísticas entre a literatura e a fotografia


“ Como ele pertencia, mesmo com seis anos, àquele imenso clã que não consegue manter este sentimento separado daquele, mas deve deixar as possibilidades futuras, com suas alegrias e tristezas, nublar o que está realmente à mão, como para essas pessoas, mesmo na mais tenra infância, qualquer giro na roda da sensação tem o poder de cristalizar e transfixar o momento sobre o qual ela lança sua obscuridade ou sua radiância, James Ramsay, sentado no chão, recortando gravuras do catálogo ilustrado das Lojas do Exército e da Marinha, conferia à gravura de um refrigerador, enquanto a mãe falava, um gozo celestial. Ela estava envolta em prazer. O carrinho de mão, o aparador de grama, o som dos álamos, as folhas empalidecendo antes da chuva, as gralhas grasnando, as vassouras batendo, os vestidos farfalhando – todas essas coisas eram tão coloridas e distintas em sua mente que ele já tinha o seu código pessoal, a sua linguagem secreta, embora aparentasse a imagem de absoluta e intransigente severidade, com sua fronte elevada e seus penetrantes olhos azuis, impecavelmente cândidos e puros, franzindo levemente os cenhos à vista da fragilidade humana...”

O trecho em questão pertence ao livro ‘Ao Farol’ da escritora inglesa Virginia Woolf, que em suas obras utiliza da descrição espacial misturada com o próprio fluxo de consciência dos personagens.

Ao atentar-se não apenas a obra modernista de Virginia, mas recorrendo às obras mais antigas, o espaço da história e a possibilidade de enxergar uma imagem nas entrelinhas se mistura a noção de fotografia, pois no fim, enxergar além do que é apresentado faz parte da noção artística da fotografia.

O filósofo Jean Baudrillard teorizou a compreensão da fotografia que é permeada de símbolos, sendo a mensagem compreendida uma representação da realidade, ou seja, nada nunca seria o que é de fato dado os seus recortes. Porém, com a literatura, as imagens, diálogos e histórias são justamente uma representação ou da realidade, ou da própria imaginação do autor. Segundo ele, a compreensão contemporânea de realidade é permeada por símbolos e simulacros, que tornam a realidade uma simulação de si mesma, uma hiper-realidade. As simulações e os simulacros não são apenas abstrações fictícias, mas representações da realidade, feitas a partir de vestígios imaginários desta mesma realidade.

De acordo com Antônio Candido, renomado crítico literário, a literatura humaniza no sentido que faz viver. Ao retratar os sentimentos e as relações humanas, criando a possiblidade de reavaliar as próprias atitudes. A leitura funciona como uma proteção contra extremismos, ignorância na medida que torna os seres humanos conscientes de si mesmos. O papel artístico das palavras se dá nos seus arranjos, rimas, entrelinhas e emoções transmitidas, que ao mesmo tempo estimulam a razão.

A fotografia possui diferentes papéis na sociedade contemporânea, e mesmo representando a hiper-realidade de Baudrillard, as imagens provocam o ato reflexivo como a literatura também faz. A construção imagética espelha a realidade do sentir e da vida de acordo com a visão do fotógrafo, e a obra literária coloca em cheque a passado, o presente e o futuro e está sempre permeada de raciocínio crítico.

A impossibilidade de separar uma imagem construída pela mente de um leitor e de uma fotografia de tal lugar é o que torna ambas expressões artísticas intrínsecas uma da outra. Criar um texto a partir de uma foto e uma foto a partir de um texto denota essa intimidade.

A arte além de tudo que faz, necessariamente inspira mudanças a partir do racionalismo e desperta sensações pela emoção. As camadas por trás de cada foto e de cada livro são densas, faz-se necessário refletir sobre cada uma delas para alcançar o propósito artístico de cada livro e cada fotografia, e a compreensão do processo por trás de grandes obras.

As distorções e caricaturas por vezes presentes em ambas formas de arte exprimem sempre uma crítica, que pode parecer absurda, porém é ou se tornará real, por exemplo. Observar e refletir não são atos exclusivamente próprios da arte, mas deveriam ser um exercício constante da razão. Felizmente, a prática se torna possível ao consumir, justamente, arte.


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